Como conciliar da melhor forma “ciência”, “tecnologia” e “produção”?

Essa pergunta deve ser o pano de fundo de todo sistema produtivo, pois, se você conseguir respondê-la adequadamente, chegará àquilo que é quase um fetiche para os sistemas produtivos na atualidade: a sustentabilidade.

Área em recuperação por nucleação, com vegetação herbácea e fragmento florestal ao fundo, em Toledo, Paraná.
Recuperação de área degradada com a técnica de nucleação, em Toledo (PR).
Fotografia: Julio Daniel do Vale.

É nisso que tenho me empenhado nos últimos tempos. Ter atuado estritamente com pesquisa por mais de 20 anos, depois lecionado por quase 10 anos em diversos cursos ligados à produção e, ainda, ter sido diretor técnico de um projeto de tecnologia avançada me proporcionou uma formação abrangente e diversificada.

Aprendi muita coisa, mas gostaria de destacar aqui o que mais me marcou: “o que não deve ser feito”. Em todas essas etapas, deparei-me com aquilo que hoje se convencionou chamar de greenwashing. Para quem não está familiarizado com o termo, traduzo-o para um português bem abrasileirado… greenwashing é uma sacanagem! É isso aí. É usar o marketing (principalmente na internet) para vender uma imagem ambientalmente correta quando, na prática, o produto, a empresa ou o processo provoca danos ao meio ambiente.

Claro, não há sustentabilidade assim. E aqui apelo ao sentido mais elementar e profundo desse termo. Ou seja, pensar no longo prazo, de maneira a não exaurir o sistema. Entendam aqui o sistema como um todo: os recursos naturais, sim, por óbvio, mas também os aspectos sociais e comerciais. Estou falando de ESG? Depende. É mais uma sigla e expressão de apelo comercial ou é uma prática objetiva que pretendemos adotar?

Paisagem da APA da Serra do Cabral, com vegetação campestre, palmeiras e serras ao fundo, em Minas Gerais.
Área de Proteção Ambiental da Serra do Cabral, Minas Gerais.
Fotografia: Julio Daniel do Vale.

Dentre os temas vinculados à sustentabilidade, tenho me ocupado mais intensamente com a questão do javali. Até alguns meses atrás, via, decepcionado, como as iniciativas desenvolvidas no país ainda estavam muito aquém da dimensão e da complexidade desse problema. Cheguei a pensar que se confirmaria o diagnóstico que ouvi de importantes atores desse meio. Ou seja, seria necessária uma emergência sanitária, como a detecção de um foco de peste suína africana em javalis ou a reintrodução da febre aftosa no país, eventualmente envolvendo esses animais, para que os setores responsáveis se mobilizassem de forma efetiva.

Felizmente, desde o início deste ano, algumas instituições e associações têm se mobilizado. Algumas mais, outras menos; algumas atuando como promotoras, outras assumindo a responsabilidade e agindo. O fato é que talvez estejamos, agora, diante de uma mudança de perspectiva e que medidas efetivas venham a ser adotadas nas mais diversas instâncias, para que os riscos que esse animal representa para o sistema produtivo, para a Saúde Única e para o meio ambiente sejam, de fato, tratados com a devida atenção que merecem.

Vegetação na Reserva Biológica de Maracá, em Roraima, sob céu nublado com um arco-íris ao fundo.
Reserva Biológica de Maracá, Roraima.
Fotografia: Julio Daniel do Vale.

Tomo aqui o javali como exemplo, mas quantos outros temas do setor produtivo também não merecem de nós a mesma abordagem? Precisamos tratar esses problemas com o que de melhor a ciência e a tecnologia têm a oferecer. Só assim a expressão “sustentabilidade”, já tão desbotada e gasta, poderá recuperar seu verdadeiro significado.

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